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Matéria Especial

Entrevista com o ponta Marlon

Publicado: sexta-feira,30 de maio de 2008
Por: CoralNET

Por Marcos Velloso

Marlon Roniel Brandão. Não me refiro ao ator norte-americano Marlon Brando, de O Poderoso Chefão (1972). Trata-se simplesmente de Marlon, o camisa 7 do Santa, ponta-direita que causava pesadelos nos adversários por conta de seus dribles e fazia a massa coral enlouquecer de alegria.

Campeão Pernambucano de 86, o ponta também ficou conhecido por que crescia de produção e ousadia nos clássicos. Emprestado ao Santa Cruz pelo Esportivo-RS, no início de 85, logo ele se tornaria ídolo da torcida. Como prova disso, aconteceu no mesmo ano o jogo Pró-Marlon, quando a renda da partida foi utilizada para a compra do passe do jogador. Apesar do vice-campeonato no Estadual e a fraca campanha coral no Brasileiro de 85 (43° colocado), essa partida refletia o bom relacionamento entre a torcida e o ponta já na sua primeira temporada no clube. Relação que viria a melhorar.




O ponta Marlon hoje, no Mundão, e no detalhe em 1986

Depois do título estadual em 86 pelo Tricolor vieram a convocação para a Seleção Brasileira de base e a transferência para a Europa. Em quase dois anos no Arruda, foram 33 gols em partidas oficias – 12 só nos clássicos. O veloz, habilidoso, artilheiro e craque da conquista de 86 deixou na memória da torcida a essência do futebol alegre. Além do Santa Cruz , Marlon defendeu o Sporting, Boa Vista e Estrela Amadora de Portugal, Marília, Guarani, Valladolid/Espanha e Fênix/EUA.

Em entrevista ao site Coralnet, realizada no Arruda, o hoje empresário de jogadores, 44 anos, fala sobre sua a identificação com o clube, o time campeão de 86, a violência dos adversários da época em que jogava, a importância da torcida coral para ele, entre outros assuntos interessantes. “Adoro Pernambuco”, diz o craque endiabrado, que atualmente mora em Olinda.

Qual foi o seu melhor momento no Santa Cruz?
Eu cheguei no Recife desconhecido, vindo do Esportivo de Bento Gonçalves-RS. O que muita gente não sabe é que eu iria para o Náutico, mas acabei indo para o Santa Cruz através de Ernesto Guedes. No Santa, eu tive vários bons momentos, como o título Pernambucano em 86, alguns turnos conquistados na Ilha do Retiro, outros excelentes jogos no Campeonato Brasileiro. Foram muitos jogos, ao todo, um ano e onze meses maravilhosos. Mas em 86, além do título estadual, eu fiz um grande Campeonato Brasileiro e fui convocado para a Seleção Brasileira de novos depois de um jogo contra o Botafogo, no Rio, em que nós perdemos por 2x0, mas eu fui muito bem. E, por último, veio a transferência para o Sporting de Portugal, que já tentava minha contratação há seis meses. Na mesma época eu recebi propostas do Palmeiras, Santos e Fluminense, mas preferi ir para a Europa.




Charge do time campeão de 86 publicada no jornal Diário de Pernambuco

Em 85, mesmo com o Santa não realizando uma boa temporada, você agradava a torcida e a imprensa, tanto que aconteceu o jogo pró-Marlon. Qual foi o seu sentimento?
A torcida sempre me ajudou e eu fiz por onde também porque sempre fui um grande profissional. Mas, claro, tinha meus defeitos, afinal, na época eu estava com 20 anos e era um pouco temperamental por conta da minha vontade de ganhar. Surgiu a idéia da direção da época para comprar meu passe em definitivo [Marlon estava emprestado], numa dificuldade tremenda, e eu não via a hora de ficar de vez no Santa. Num jogo contra o CRB, um jogo de festa, nós empatamos por 3x3, eu estava machucado e fiquei muito feliz por ver uma torcida ter adquirido o próprio jogador, isso não é para qualquer um. O que a torcida do Santa Cruz fez foi inédito.

Sobre o time campeão Pernambucano de 86 (que viria a ser bi em 87), o que foi determinante para a conquista da taça?
Nosso grupo era muito bom, não só o Santa, mas o Náutico e o Sport também. O nível era de Série A naquela época. Só que o nosso grupo era muito fechado e unido, o que nos ajudou bastante. A gente tinha Birigüi, Marco Antônio, Lula, Ivã, Lotti, Zé do Carmo, Rommel e chegaram algumas peças, além do técnico Moisés que nos deixava à vontade para jogar e isso foi determinante para que nós conseguíssemos o título.

Você fez 12 gols em clássicos (seis contra o Náutico e seis contra o Sport). Por que o seu futebol crescia tanto de produção nessas ocasiões, especialmente contra o Sport, na Ilha do Retiro?
Eu sempre dei o meu máximo em qualquer partida, mas clássico é empolgante, é uma injeção de ânimo, principalmente quando nós fazíamos as jogadas, os gols... Não tinha nenhum segredo para enfrentar o Sport e o Náutico, mas é motivador você chegar num estádio com 40, 50, 60 mil pessoas como acontecia em 85 e 86, fora o apoio que eu tinha da torcida, a imprensa também me ajudou muito aqui em Pernambuco. Minha vontade era sempre de ganhar e ainda é até hoje, não tinha essa só de disputar. Eu acho que os jogadores de hoje precisam de um pouco mais de gana, porque, tendo isso, com certeza com uma boa técnica eles chegam lá.




Marlon diante do Clube Náutico Capibaribe [foto: Edvaldo Rodrigues/Diário de Pernambuco]

Qual a lembrança que o nome Luizinho, ex-lateral-esquerdo do Sport, trás a você?
Luizinho era um lateral muito forte, inclusive, hoje é muito meu amigo. Mas não era fácil porque na minha época eu recebia pancada à vontade, muita tesoura, carrinho, voadora de muitos adversários, não só do Luizinho, como André Luiz, Paulo César do Grêmio, Cláudio Mineiro do Náutico. Hoje o jogador é privilegiado porque não pode ser tocado por outro que já sobe um cartão amarelo, comigo não tinha isso. Foi muito difícil, mas, graças a Deus, não conseguiram me pegar.

Quando você atuava no Santa os seus marcadores nem sempre eram leais e você às vezes reclamava demais com os árbitros. Como é que foi lidar com essa marcação cerrada?
Muito difícil, eu levava umas entradas violentas e não tinha sangue de barata. Havia árbitro que punia e tinham outros que não puniam, por isso, que às vezes eu era temperamental. Fui expulso em alguns jogos, mas, se eu tivesse a cabeça um pouquinho mais no lugar teria evitado os cartões, às vezes me faltava um pouco de tranqüilidade. Hoje, eu não faria, eu aconselho a manter a cabeça no lugar quando levar a pancada, manter a tranqüilidade, agüentar. Mas jogador com habilidade, velocidade e técnica vai ser caçado o jogo todo e eu recebia ameaças, não só aqui. Os que têm qualidade eles querem quebrar, os que não têm nem tocam.

Você chegou a sofrer alguma contusão mais grave por causa das pancadas?
Eu tive uma lesão muito grave em 1991, em jogo da Taça Uefa entre Boa Vista e Torino, time do Casagrande na época, em Turim. A partida estava 1x0 para o Torino e eu ia fazer o gol quando o goleiro Marchegiani, goleiro da seleção italiana, me deu uma cotovelada. Fui direto para o hospital. Ele deveria ter sido expulso, o pênalti marcado e o máximo que aconteceu foi um amarelo pro goleiro. Inclusive saiu num jornal de São Paulo que eu tinha falecido, imagina a minha mãe que é de lá lendo aquilo. Mas depois de quatro meses eu retornei a jogar e nós disputamos a final da Taça de Portugal contra o Porto, eu fiz o gol da vitória de cabeça, 2x1, e perdi completamente o medo.




Santa derrota o Sport em plena Ilha do Retiro na final de 86

Como foi sua participação na Seleção Brasileira de base (ou de novos, como era chamada), em 86, no Campeonato Sul-Americano, no Chile?
Minha participação foi boa. Aliás, eu fui o único jogador do Nordeste, porque o Lula (zagueiro do Santa) foi cortado e só eu viajei para o Chile. Preparamo-nos em Santa Catarina e no Rio de Janeiro com todos os medalhões Mauricinho, Dunga, Paulinho, Renê Weber junto com o técnico Jair Pereira. No primeiro jogo, contra o Paraguai, fiquei no banco, mas nos outros três jogos eu joguei e joguei muito bem. Nós perdemos nos pênaltis contra a Colômbia quando iríamos fazer a final contra a Argentina e terminamos em terceiro lugar, classificando a Seleção para o Pan-Americano de 87, nos Estados Unidos.

Você é paulista e encerrou a carreira no exterior. O que fez você se estabelecer em Pernambuco?
Eu sou de Marília, São Paulo, mas eu adoro esse lugar aqui. Minha esposa é pernambucana e fez com que eu ficasse aqui. Quando fixei residência em 1998, minha filha nasceu aqui, o meu outro filho nasceu em Portugal, mas eu gosto muito daqui, fui muito bem acolhido, adoro futevôlei e o clima.

O que você acha de sua posição não existir mais? Era uma posição feita para os dribladores?
Para ser ponta tinha que saber driblar, ir no fundo e cruzar bem. Eu não admito uma pessoa quando chega ao fundo e erra o cruzamento. Eu treinava muito fundamento e cruzamento na base, no Guarani. Mas eu sou contra o fim dos pontas, sinceramente, se um dia eu fosse treinador eu voltaria com a posição, num 4-3-3. No Boa Vista, quando a gente tinha a bola era 4-3-3 e quando perdia era 4-5-1, como acontece com algumas seleções atualmente. Qual o problema de jogar aberto?

Já no final de 86, no Santa, você desempenhava essa função...
Eu não gostava de marcar, mas, principalmente em Portugal, o treinador me pedia para que eu ajudasse até o meio-de-campo. Só que na frente me dizia para que eu inventasse o que eu quisesse. Então o treinador me deixava à vontade e aí o seu rendimento só tende a crescer.

Como você analisa o atual momento do Santa Cruz?
Eu fico triste com essa situação porque nunca esperava ver o Santa Cruz numa Série C, um time de Série A passando por esse momento, sem credibilidade e a gente tendo até que escutar umas piadinhas. Espero que o clube consiga fazer um trabalho correto e volte para a Série B e depois à Série A.

Qual foi o seu jogo inesquecível no Santa?
2x1, na Ilha do Retiro, ganhamos o segundo turno em cima do Sport (no Campeonato Pernambucano de 85). Não era pra eu ter jogado, pois eu estava com o tornozelo muito inchado e acabei fazendo os dois gols (um no tempo normal e outro na prorrogação).




Marlon enlouquece a defesa do Sport

E uma atuação especial?
Contra o Internacional, com o gol mais bonito da carreira, nós ganhamos de 3x1, pelo Campeonato Brasileiro de 85. Roberto lançou, eu dominei no peito e, sem deixa cair, mandei na gaveta.

Como você se definiria como jogador?
Eu era um jogador de muita velocidade, habilidoso, ambidestro, cabeceava bem, apesar da minha estatura, e incomodava ali na frente, não parava e tinha muita gana. Gostava muito de driblar objetivamente, não pra trás, sem menosprezar o adversário. Dependendo da situação um drible valia mais que um gol, mas, claro, se fosse um drible, um gol e com vitória era melhor ainda.

O que a torcida coral representa para você?
A torcida do Santa Cruz é inesquecível. Não tenho o que falar da torcida, ela sempre me ajudou, mesmo nos momentos mais difíceis. Eu cheguei desconhecido e virei ídolo do Santa. Eu vou falar o quê da torcida do Santa Cruz? Um clube desses, uma massa dessa não pode estar na Série C. Eu vim para todos os jogos da Série B de 2007, o time mal e a média de quase 30 mil torcedores por jogo. Não é para qualquer um isso. É uma pena ver o Santa Cruz nessa situação. É uma torcida fantástica, pois é impressionante como ajuda nos 90 minutos. Fanático igual ao torcedor do Santa não tem, embora a torcida do Sporting também seja fanática. Mas eu tenho um carinho especial pelo povão aqui.

Qual a mensagem que você deixa para a torcida do Mais Querido?
Continuar fazendo o que ela sempre fez que é incentivar o clube. Ajudar independente de quem esteja no comando, apoiar os diretores, os jogadores, porque se ficarmos contra vai ser pior. O Santa Cruz tem que estar na Série A. Já tiveram grandes equipes que passaram pela Série C como o Fluminense, Vitória, Bahia. O Santa com a torcida que tem na Série C? Não pode, tem que voltar para Série A.

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