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Com o Santa Cruz das arquibancadas para o Mundo - desde 1996

Matéria Especial

Entrevista com o goleiro Marcelo Martelote

Publicado: sábado,9 de junho de 2007
Por: CoralNET

Estádio do Arruda, 28 de julho de 1993, Santa Cruz e Náutico faziam a segunda partida da final do Campeonato Pernambucano. 71.243 pessoas assistiam a vitória do Timbu, que já tinha a vantagem do empate no tempo normal, por 1 x 0 e com um homem a mais em campo.

Incrédulos, alguns tricolores passaram a deixar o Mundão. Até que aos 38 minutos do segundo tempo, quando a torcida alvirubra já comemorava o título, o meia Fernando empatou o placar. As arquibancadas corais, que nessa altura já estavam esvaziadas, foram tomadas novamente por um mar de gente. O Arruda ficou pequeno naqueles sete minutos decisivos.

Com o apoio da massa, o Santa se jogou para cima do Náutico e tentou de todas as formas a virada. E quando ninguém mais acreditava, a zaga alvirubra falhou e o atacante Célio soltou a bomba para decretar a vitória do Santa.

O jogo foi para a prorrogação e o Mais Querido acabou conquistando heroicamente a taça de campeão. O que se viu naquele dia ficou marcado na história do futebol mundial. Uma vitória para não ser esquecida. Uma vitória para orgulhar várias gerações.

Um dos personagens marcantes daquela quarta-feira foi o goleiro Marcelo. Peça decisiva durante parte da vitoriosa campanha, o jogador acabou falhando no gol do Náutico, mas se recuperou e foi responsável direto por verdadeiros milagres.

Hoje, já aposentado da carreira de jogador, Marcelo Martelote é assistente técnico do treinador Pintado, outro ex-atleta com passagem pelo Santa, e falou com exclusividade para o site CoralNET sobre as suas duas passagens pelo Arruda e a emoção de vestir a camisa tricolor.

O INÍCIO DA CARREIRA

"Comecei no Taubaté. Passei três anos lá e em 1989 me transferi para o Bragantino, onde conquistei vários títulos, como o Paulista de 1990 e o vice Brasileiro de 1991. Em 1993 tive a felicidade de vir para o Santa e ser campeão também. Depois voltei para o Bragantino e em 1997 fui para o Santos. Já em 1999 voltei para o Arruda, aonde fiz parte da campanha da subida para Série A e fiquei até 2000."

O FORTE TIME DO BRAGANTINO NO INÍCIO DA DÉCADA DE 90

"Sempre que uma equipe considerada pequena surge com a força como nós surgimos na época e conquista títulos importantes, isso acaba ficando marcado. Não só na história do clube, como na do futebol, pois é surpreendente. Felizmente tivemos condições de trabalhar com excelentes profissionais e montar um grupo forte que queria aparecer no cenário nacional. Essa química deu certo."

A PRIMEIRA PASSAGEM PELO SANTA

"Em 1993 a história foi simples. O vice-presidente da época, José Neves, foi para São Paulo em busca de um goleiro para a disputa do segundo turno do Pernambucano, já que no primeiro o Santa não tinha ido bem. Assistindo alguns jogos pelo interior, ele viu o Bragantino atuar e como o Campeonato Paulista já estava perto do fim, ele acabou negociando com a nossa diretoria.

Voltei para o Recife com o José Neves e com o atacante Washington. Éramos justamente as duas peças que estavam em carência no Arruda e não só fizemos um belo segundo turno, como também conquistamos o campeonato."

A MAIOR LEMBRANÇA QUE TEM DO SANTA

"São várias. Quando conversamos lá no Sul sobre futebol, onde as pessoas não acompanham o Estadual daqui, eu costumo dizer que tive no Arruda a melhor fase da minha carreira e algumas pessoas nem acreditam. Para você ter boas atuações, é preciso estar feliz, e aqui eu era muito feliz.

As lembranças são as melhores possíveis, mas tenho certeza que para qualquer atleta que tenha vestido a camisa do Santa e precise responder esta pergunta a resposta é simples: A torcida.

A torcida tricolor é maravilhosa. Sempre lota os estádios e deixa qualquer um arrepiado. São poucas torcidas no Brasil que têm um comportamento assim."



Torcida fazendo festa no Mundão

A DECISÃO DE 1993

"Aquele jogo é inesquecível. Sei que existem até livros onde se conta essa história.

O estádio estava lotado, tínhamos perdido o primeiro jogo da final (aquela tinha sido minha primeira derrota com a camisa do Santa) e o Náutico ainda tinha a vantagem do empate no segundo jogo. Nosso artilheiro foi expulso ainda no primeiro tempo e logo depois eu falhei em uma cobrança de falta de Paulo Leme. Estava tudo dando errado.

Na seqüência nos equilibramos e reagimos. Felizmente conseguimos virar e levamos o jogo para prorrogação. Nos superamos em campo, mesmo com um jogador a menos em campo e tendo vários atacantes no time, devido as alterações feitas em busca da virada, e conseguimos segurar o placar.

Lembro ainda que o time naquela final ainda estava modificado, pois alguns jogadores considerados titulares estavam contundidos. Foi o caso do zagueiro Índio, do volante Leomir e do lateral Marco Antônio.

Entramos em campo comigo no gol, Araújo na lateral, Júnior Cordel e Reginaldo na zaga, Quinho na esquerda, Mazo, Fernando, Serginho (um garoto que estava surgindo com muita qualidade) e Marcelinho (um ponta direita que veio do Mogi Mirim) e na frente eram Washinton e Marcelo. Depois entraram o Célio e o Gil para o time ficar mais ofensivo.



Time campeão de 1993

O Edinho, que hoje é o presidente do Santa, era nosso gerente de futebol e teve uma participação fundamental naquela campanha. Uma pessoa que tem um conhecimento de futebol muito grande e um comando forte.

Nosso treinador era o Charles Muniz, que estava deixando de ser preparador físico para tentar ser técnico. A mesma situação que ele vive hoje no Arruda. Em 1993 ele comandou bem nosso grupo.



Marcelo, Edinho e Charles Muniz em 1993

Acredito que o maior motivo de sucesso daquele elenco foi a união de todos e a qualidade técnica unida a raça. Tínhamos jogadores habilidosos e experientes, como o Washington, que jogando apenas metade do campeonato conseguiu ser artilheiro disparado com 22 gols, e também jogadores de força como o Leomir."

A SEGUNDA PASSAGEM PELO ARRUDA

"Fui para o Santos com o Wanderley Luxemburgo em 1997 e em 1998 chegou o Leão. Como ele não me deu muitas oportunidades, resolvi sair. Tive um convite do Santa e não pensei duas vezes.

Era um momento importante para o clube. Naquela época estavam investindo na contratação de grandes jogadores. Cheguei aqui junto com o Luiz Carlos, depois vieram o Mancuso, o Almandoz, o Paulinho Mclarem e o Marcos Adriano.

Fizemos uma campanha boa, mas infelizmente não conseguimos o título. O Sport tinha uma equipe muito entrosada e nós estávamos ainda nos conhecendo. Conseguimos derrotar eles no Arruda, mas acabamos perdendo a final.

Ali pelo menos plantamos uma semente para que no Brasileiro pudéssemos fazer bons jogos e conquistar a vaga para Série A."

A MAIOR ALEGRIA COM A CAMISA TRICOLOR

"Não há como citar outra coisa se não o título de 1993. Mas posso falar também de um jogo diante do Sport, na final do segundo turno de 1999, quando vencemos eles no Arruda."

A MAIOR TRISTEZA

"Quando você passa por tudo que eu passei aqui, o pior momento é sempre o de ir embora. Infelizmente, na metade do Brasileiro de 1999, eu tive uma lesão no púbis e acabei ficando impossibilitado de atuar.

Tentei voltar algumas vezes e não deu. Esse momento foi muito ruim. Queria estar junto do grupo e não pude. Acabei tendo um problema com o presidente Jonas Alvarenga e meu contrato foi rescindido."

A MELHOR DEFESA

"Joguei mais de 60 jogos pelo Santa. Minha passagem aqui foi maravilhosa, a melhor da minha carreira. É difícil citar apenas um jogo. Em 1999 tive muito trabalho para segurar o ataque do Sport, mas consegui."




A TORCIDA DO SANTA CRUZ

"Não há como definir. Lembro de dois fatos que até hoje eu conto aonde eu chego. O primeiro aconteceu em 1998, quando eu nem estava aqui. O Santa estava para cair para Série C, era uma quarta-feira chuvosa e mais de sessenta e cinco mil pessoas empurraram o time para cima do Volta Redonda.

O segundo foi na final de 1993. Aquilo me emocionou tanto que até hoje quando eu relembro os fatos sinto novamente aquela sensação. Eu olhei para o placar eletrônico e vi pela hora que o tempo da prorrogação já tinha acabado. A bola havia saído pela linha de fundo e eu retardei a cobrança do tiro de meta. Já tinha levado um amarelo em um lance parecido e o Wilson de Souza se encaminhava até mim. Pensei que iria tomar o vermelho, mas em menos de cinco segundos a torcida já tinha lotado o gramado e ele teve que acabar a partida. Foi demais!

Só quem já participou da história do Santa sabe o que representa esta torcida e o que ela pode fazer."

HOJE

"Encerrei minha carreira como jogador há cinco anos. Passei a exercer a função de treinador. Estive por cerca de dois anos no Palmeiras e depois me juntei com o Pintado trabalhando em alguns clubes do interior paulista. Hoje estou no Paraná Clube, na Série A do Brasileiro, e espero ter sucesso.

Um dia ainda sonho em voltar a trabalhar no Santa. É um clube que eu sei que precisa de ajuda e sei que eu posso ajudar. Quero ver o Santa Cruz de volta na primeirona e com força para permanecer lá."



Marcelo até hoje acompanha tudo sobre o Santa Cruz

RECADO PARA A TORCIDA CORAL

"Independente de onde eu esteja, estarei sempre torcendo pelo Santa. Tenho um carinho muito grande por este clube. Trabalhei durante sete anos no Bragantino e foi onde tive maior exposição na mídia, por ter conquistado o Campeonato Paulista, mas é pelo Santa Cruz, aonde passei apenas um ano e meio, que tenho o maior carinho.

Semana passada assisti o Santa perder para o Fortaleza com um pênalti inventado e fiquei tão irritado que desliguei a televisão antes da cobrança.

Torço e tenho certeza que o Santa Cruz tem que estar na elite do futebol nacional. Pelo patrimônio que tem e a torcida que tem."

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