História - A vitória da raça

O ano de 1983 se desenhava como um grande fracasso para o Santa Cruz. No primeiro semestre, o Tricolor participou da Taça de Prata – equivalente à Série B do Brasileiro – e não se houve nada bem. O time foi eliminado após sofrer uma goleada (5x0) para o Uberaba/MG, fazendo lembrar o trauma da desclassificação do Brasileirão de dois anos antes contra o Bahia, pelo mesmo placar. O Santa fechou a Taça de Prata de 83 apenas na 19ª posição, atrás até do Central (5º).

Para agravar ainda mais o sofrimento do torcedor coral, Sport e Náutico disputavam a Taça de Ouro – a Série A -, com o rival rubro-negro fazendo boa campanha (8º colocado). Além disso, o time da Ilha do Retiro tinha levantado as últimas três taças no estado.

Tudo parecia conspirar contra o Mais Querido. Da eliminação no Brasileiro, em março, até o início do Campeonato Pernambucano, em junho, foram três meses apenas participando de amistosos, de muitas incertezas e cobranças. Para se ter uma idéia, no mês que antecedeu o Estadual, o Santa chegou a ter três técnicos. Cilinho veio, ficou 21 dias e se mandou para a Ponte Preta/SP. Ênio Andrade foi anunciado, a torcida comemorou, mas o treinador recebeu uma proposta do futebol árabe e não pisou no Recife. Por fim, a menos de 20 dias do início do campeonato, Carlos Alberto Silva desembarcou no Arruda. Um técnico jovem, 43 anos, e vencedor: campeão brasileiro pelo Guarani, em 78, paulista pelo São Paulo, em 80, e mineiro com o Atlético, em 81.

Se quisesse manter a boa média de títulos, Silva precisaria chacoalhar o elenco, formado por muitos jogadores da casa e que vinha de maus resultados nos amistosos, como as derrotas para CRB/AL e ABC/RN, esta no Arruda. O treinador logo trouxe jogadores mais experimentados como o lateral-esquerdo Almeida (31 anos), que veio do Guarani, o meio-campista Ângelo (30), ex-Ponte Preta, e o zagueiro Gomes (26), do Corinthians. Antes da chegada de Silva, no entanto, já haviam sido contratados os jovens Gabriel (23), ponta-direita, ex-Campinense/PB, e o meia Henágio (21), uma das revelações da Taça de Prata pelo Sergipe.

Sob o comando de Carlos Alberto Silva, Gomes, o goleiro Birigüi e o zagueiro Edson Alves, esses dois no elenco há mais tempo, foram campeões brasileiro em 78. Com nomes mais rodados no grupo, a média de idade do elenco subia para 23,4 anos e o time ganhava consistência para um campeonato de seis meses.

Logo no início do Estadual, nas vitórias diante dos pequenos, o ponta-de-lança Henágio já sinalizava do que seria capaz de fazer naquele ano. Habilidoso, o meia estava sempre de cabeça erguida procurando os espaços vazios.

O Pernambucano também ficou marcado pela confusão. No primeiro Clássico das Multidões houve muita discussão em torno de um pênalti a favor do Sport, aos 40 minutos do 2° tempo. Na cobrança, Wilson Carrasco chutou na trave e na volta ele mesmo mandou a bola para as redes. Os rubro-negros reclamaram que a bola havia tocado no goleiro Birigüi, mas o árbitro não ligou e o jogo ficou no 0x0. Dez dias depois, no quadrangular da 1ª fase do 1° turno, o Santa vencia o Leão, por 1x0, até os 38 minutos do 2° tempo, quando, novamente, foi marcado um pênalti para o Sport. Nesse momento, faltou energia no Arruda e o juiz suspendeu a partida. Um mês mais tarde, o resultado foi decidido no Tribunal de Justiça Desportiva, que resolveu manter a vitória coral.

Dentro de campo, o Mais Querido ainda buscava uma formação, enquanto Náutico e Sport, os dois entrosados, decidiam o 1° turno, com o título indo para a Ilha do Retiro. O setor defensivo tricolor fazia bem o seu papel com destaque para Birigüi, o então lateral-direito Ricardo Rocha e o volante Zé do Carmo, que, com sua liderança, adquiriu a braçadeira de capitão de Edson Alves. Formado no clube, Zé começou a carreira na meia, mas Pedrinho Nepomuceno, na época auxiliar do técnico Carlos A. Silva, o deslocou para a cabeça-de-área, onde o jogador se consolidou.

O maior problema da equipe era no ataque. Ramon, artilheiro do Brasileiro de 73, foi o principal atacante no início da campanha, mas o jogador já não tinha a vitalidade de antes e acabou sendo negociado durante o campeonato. Vieram os centroavantes Vargas, da Portuguesa, Django, ex-Primavera/SP, e Ivan, que estava emprestado ao Ferroviário/CE.


Gabriel marca contra o Paulistano. O atacante tinha fama de doido, mas sua loucura sempre terminava no gol adversário. Foi o artilheiro tricolor [foto: Maurício]

Com um forte esquema defensivo, um contra-ataque fatal e muita raça, o Santa Cruz venceu a 1ª fase do 2° turno. A defesa ficou ainda mais forte com a contratação do zagueiro Edson Furquim. “A nossa primeira preocupação era com a marcação. Falávamos no vestiário: não vamos deixar jogar. E a gente batia demais, era o único jeito pará-los”, disse Zé do Carmo. A conquista se deu com uma vitória sobre o Sport, por 2x0, no Arruda – todos os clássicos, com uma única exceção, foram no Estádio do Santa, pois a Ilha do Retiro estava em reformas e os Aflitos não recebia jogos desse porte. Os gols foram marcados por Henágio. “A gente tinha bons valores individuais e muita raça, mas Henágio ganhou o título pra gente. Ele foi o diferencial”, afirmou o capitão coral.

Outro jogador tão importante quanto o meia foi o goleiro Luís Neto. Ele assumiu a titularidade depois que Birigüi se contundiu e, praticamente, não largou mais a camisa 1. Uma das principais jogadas dos tricolores nascia dos escanteios dos adversários. “Eu tinha uma jogada com Luís Neto no escanteio, em que ele lançava para mim e eu puxava o contra-ataque. Quando ficava no mano a mano não tinha para ninguém”, afirma Henágio. “A gente sabia das nossas limitações e por isso explorava os contra-ataques na explosão de Henágio, que era o que a gente tinha de melhor”, diz o ex-goleiro.


Na decisão do 2° turno, briga generalizada e cinco expulsões (Django e Luís Neto do lado tricolor). Sem goleiro, o Santa terminou a partida com Zé do Carmo no gol

Luís Neto, no entanto, outro prata da casa, não conseguiu evitar a perda do 2° turno. Como o Náutico levou a 2ª fase, o alvirrubro enfrentou o Santa na final do turno. O rival coral venceu, por 1x0, em partida bastante violenta.

O Estadual chegava ao 3° turno e o Santa não tinha outra opção: vencê-lo para forçar o chamado supercampeonato. Nele, os campeões de cada etapa disputariam um triangular decisivo. Mas, antes de se classificar para o “super”, a torcida tricolor passaria por grandes emoções.

No último turno do campeonato, a Cobra-coral já contava com os reforços de Peu, meia que foi campeão mundial pelo Flamengo, em 81, e do ponta-esquerda Assis, ex-Caldense/MG. Apesar da presença desses jogadores, o Santa Cruz fracassou na 1ª fase. Um empate (2x2) com o América, em casa, complicou a situação dos tricolores na tabela. O Sport faturou aquela fase.

A pressão aumentava para o último suspiro do time no Pernambucano e um abatimento já era percebido. Na 2ª fase do 3° turno, seria preciso vencer Náutico, Sport e Central. Aí, com um perfeito posicionamento tático e sentido de marcação, o Santa demonstra crescer no momento certo. O Tricolor derrota os alvirrubros, em virada sensacional, bate os centralinos, em Caruaru, e empata com os rubro-negros, conquistando, assim, o direito de decidir o turno com o próprio Sport. Desse confronto, surgiria o grande desentendimento do campeonato de 83. A confusão agora se dava pelo local do jogo.


Peu faz cobrança de falta certeira e vira o placar a favor do Santa diante do Náutico. A vitória por 2x1 deixou o Tricolor muito perto da conquista da 2ª fase do 3° turno

Através de sorteio, o rival coral ganhou o direito de escolher o mando de campo. Com o seu estádio interditado e sem querer jogar no Arruda de novo, os rubro-negros pretendiam decidir nos Aflitos. Curiosamente, o Náutico entra em cena. “Em meio à confusão, chega à entidade (FPF) um ofício do Náutico, informando da impossibilidade de ser utilizado o seu campo. Na realidade, tudo não passava de uma armação, afinal, tricolores e alvirrubros estavam unidos para evitar o tetra do Sport. O objetivo era levar o jogo para o Arruda”, escreve o jornalista falecido Givanildo Alves, em seu livro 85 anos de bola rolando.

O fato é que, um dia antes do jogo, a FPF determinou que a partida acontecesse em Caruaru, no Estádio Luiz Lacerda. O adversário tricolor comemorou a decisão como uma vitória. Em campo, porém, o Santa provou que era melhor, de acordo com a reportagem do Diario de Pernambuco. O Mais Querido venceu por 1x0, com gol de Henágio, para um público de 19.338. Os tricolores fizeram um grande carnaval na capital do Agreste, afinal, os corais continuavam na disputa do título. Essa vitória foi um marco também para os jogadores, como Zé do Carmo, que ficou emocionado com a presença da torcida. “Na saída do hotel, em Caruaru, a gente só via torcedor do Sport. No campo, a torcida do Santa Cruz estava em peso. Isso mexeu com a gente”, diz ele.


Tricolores fazem a festa na decisão do 3° turno, em Caruaru

O técnico Carlos Alberto Silva também teve grande participação na conquista. “A união do grupo e o comando de Carlos Alberto Silva foram determinantes. Ele nos ajudou muito na parte psicológica, pois nós superamos todas as adversidades através da conversa dele”, afirma Luís Neto. “Ele sabia mexer com a cabeça de todo mundo”, completa Henágio.

O treinador ainda enfrentou uma doença, que o tirou dos treinos na reta final do campeonato. “Quando eu cheguei aqui disseram que eu ia entrar numa fria grande, por que o time era ruim. Procurei mentalizá-los para a vitória, principalmente os mais jovens. E tratei de conseguir aqueles que já conhecia, como Almeida, Gomes, Edson Furquim, Peu, Django”, disse Silva após a conquista do trisuper.

Nas últimas oito partidas, incluindo o supercampeonato, isto é, no momento mais crítico da competição, o Tricolor se manteve invicto. Assim, com muita raça e disciplina tática, o Mais Querido comprovava seu poder de chegada e de decisão na hora certa.

Saiba como foram os jogos decisivos para a conquista tricolor.

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